Lucas Teixeira

Manifesto Cypherpunk

A privacidade é necessária para termos uma sociedade aberta na era eletrônica. Privacidade não é o mesmo que segredo. Um assunto privado é uma coisa que alguém não quer que o mundo inteiro saiba; um assunto secreto é uma coisa que alguém não quer que ninguém saiba. A privacidade é o poder de revelar-se seletivamente para o mundo.

Se duas partes têm algum tipo de interação, cada uma tem uma memória dela. Cada parte pode falar sobre sua própria memória do acontecimento; como alguém poderia impedir? Alguém poderia aprovar uma lei contra isso, mas a liberdade de expressão, mais ainda que a privacidade, é fundamental para uma sociedade aberta; nós procuramos não restringir nenhum tipo de expressão. Se muitas partes falam juntas no mesmo fórum, cada uma pode falar pra todas as outras e agregar conhecimento sobre indivíduos e outras partes. O poder da comunicação eletrônica permitiu essa discussão em grupo, e ela não vai sumir meramente porque talvez queiramos que ela suma.

Já que queremos privacidade, devemos garantir que cada parte da transação tenha conhecimento somente do que é diretamente necessário para essa transação. Como qualquer informação pode ser divulgada, devemos nos assegurar de que revelamos o mínimo possível. Na maioria dos casos, a identidade não é importante. Se eu compro uma revista de uma loja e dou dinheiro pro caixa, não há necessidade dele(a) saber quem eu sou. Se eu peço ao meu provedor de correio eletrônico para mandar e receber mensagens, meu provedor não precisa saber com quem eu estou falando ou o que outros estão me dizendo; meu provedor só precisa saber como levar a mensagem até lá e quanto eu os devo. Quando minha identidade é revelada pelo mecanismo interior da transação, eu não tenho privacidade. Eu não posso me revelar seletivamente; eu sempre tenho que me revelar.

Logo, privacidade em uma sociedade aberta requer sistemas de transação anônimos. Até agora, o dinheiro foi o sistema principal. Um sistema de transação anônimo não é um sistema de transação secreto. Um sistema anônimo permite que pessoas revelem suas identidades quando necessário e somente quando necessário; essa é a essência da privacidade.

Privacidade em uma sociedade aberta também requer criptografia. Se eu falo alguma coisa, quero que seja escutado só por quem eu pretendo que escute. Se o que eu digo está disponível para o mundo, eu não tenho privacidade. Encriptar é indicar o desejo por privacidade, e encriptar com criptografia fraca é indicar pouca vontade por privacidade. Além disso, revelar a identidade com segurança quando o padrão é o anonimato requer uma assinatura digital.

Não podemos esperar que governos, corporações ou outras organizações grandes e impessoais nos garantam privacidade por caridade. Convém a eles falar de nós, e nós devemos esperar que eles falem. Tentar impedir o discurso deles é lutar contra a realidade da informação. A informação não só quer ser livre, ela deseja intensamente ser livre. A informação se expande para preencher o espaço de armazenamento disponível. A informação é a irmã mais nova e mais forte do Rumor; a informação corre mais rápido, tem mais olhos, sabe mais e entende menos que o Rumor.

Devemos defender nossa própria privacidade se planejamos ter alguma. Devemos nos juntar e criar sistemas que permitem que transações anônimas aconteçam. As pessoas têm defendido sua própria privacidade por séculos com sussurros, escuridão, envelopes, portas fechadas, apertos de mão secretos e mensageiros. As tecnologias do passado não permitiam uma privacidade forte, mas tecnologias eletrônicas permitem.

Nós, os Cypherpunks, nos dedicamos a construir sistemas anônimos. Nós estamos defendendo a nossa privacidade com criptografia, com sistemas de encaminhamento de e-mail anônimos, com assinaturas digitais e com dinheiro eletrônico.

Cypherpunks escrevem código. Nós sabemos que alguém tem que fazer software pra defender a privacidade, e como não podemos ter privacidade a não ser que todos nós tenhamos, nós vamos fazer o software. Nós publicamos o código pra que nossos parceiros Cypherpunks possam praticar e brincar com ele. Nosso código é livre pra todos usarem, no mundo inteiro. Nós não nos importamos muito se você não aprova o software que criamos. Nós sabemos que software não pode ser destruído e que um sistema amplamente disperso não pode ser interrompido.

Os Cypherpunks lamentam regulamentações sobre criptografia, porque criptografia é fundamentalmente um ato privado. O ato de encriptar, de fato, remove informação do domínio público. Até mesmo leis contra criptografia só vão até onde alcançam a fronteira de um país e o braço de sua violência. A criptografia vai inevitavelmente se espalhar pelo planeta inteiro, e junto com ela os sistemas de transação anônimos que ela torna possível.

Para a privacidade ser espalhada, ela deve ser parte de um contrato social. As pessoas devem se juntar e implementar esses sistemas para o bem comum. A privacidade de alguém só se estende até onde vai a cooperação de seus companheiros na sociedade. Nós, os Cypherpunks, aceitamos suas perguntas e preocupações e esperamos que possamos mobilizar você, pra que não estejamos nos iludindo. Nós não vamos, no entanto, nos desviar do nosso caminho porque alguém pode eventualmente discordar das nossas metas.

Os Cypherpunks estão ativamente engajados em criar redes mais seguras para a privacidade. Vamos prosseguir juntos no mesmo passo.

Avante.

Eric Hughes hughes@soda.berkeley.edu

9 de Março de 1993

Texto original em inglês